O Catacumba, Rio de Janeiro, 1985, Ano I no. 5  - RIO ARTE, Município do Rio de Janeiro

Por que Música Antiga?

Denis Borges Barbosa

Tinha quinze anos, se tanto. O tempo era o início da década de 70 '; o lugar, a Pró-Arte do Rio de Janeiro. Não havia onde, no Bra­sil, se vivesse tanto música antiga, em trios de violas da gamba* e coros de flau­tas; bandos de rauspfeifen`1, kortzhol­ten"2 e cromornas'3, madrigais e grupos de dan­ça renascentista.

A história de Y é típica da época e do lugar. Estudava-se flauta doce seriadamente, racional­mente: em um momento qualquer do curso, era o tempo de aprender a articulação turu, da tradi­ção francesa de Hotteterre'5, através do método de Quantz 6, o professor de Frederico o Grande. O turu é mais do que um movimento de ponta de língua sobre os dentes: é o sinal de uma desigual­dade necessária entre duas colcheias escritas de forma igual. É mais ainda: é o sinal de um estilo harmônico típico da França do fim do século 17, de um conceito rítmico de acentos e quantidades, como na poesia grega, e não simples marcação, ou tactus. Enfim, o turu é uma cultura inteira.

Pois Y não percebia esta regra básica da músi­ca antiga: praticar arte de outro século, ou de ou­tra cultura, é uma questão mais antropológica do que estética. Percebeu depois, talvez... que usar a articulação de Hotteterre é conviver com o Outro, conhecê-lo, compreendê-lo, reencena-lo. Quantz dizia que o músico tem de ser, antes de tudo, um ator. O ator constrói, lenta e refletidamente seu personagem; é o cavalo da umbanda, que recebe subitamente o seu Outro.

Vale aqui uma certa psicanálise da Música An­tiga, um pouco ao estilo de Bachelard'7. Na pro­cura deste Outro histórico (a única justificativa fi­losófica da prática da música antiga) o artista tem de se desvencilhar de sua própria cultura, pôr entre parênteses sua formação tradicional, pôr em dúvida sua própria sensibilidade.

A historiografia da Música Antiga neste século é a descrição das resistências e dos desvirtuamen­tos deste processo de desnudamento cultural.

A primeira resistência é a ilusão do folclórico, do pitoresco, do bucólico. Tocar uma flauta doce, ou melhor, uma cromorna gemebunda, dá ao exe­cutante e ao público a idéia de participar de um evento especial, valorizado em relação às proto­fonias d'O Guarani. Valorizado também como eru­dito e ao mesmo tempo tecnologicamente auste­ro (o bom selvagem, de Rousseau) perante o Rock in Rio.

Quem ouviu as gravações que os Dolmetsches faziam pode ver os resultados desta patologia da Música Antiga, especialmente grave na primeira metade do século 20. Tudo muito típico. É tal co­mo tentar assimilar a cultura brasileira pelo uso contínuo de uma camiseta do Flamengo.

A segunda ilusão é a do simples e fácil. Toma-se um largo de uma sonata de Handel 9 e toca-se as semi-breves lenta e respeitosamente como se fosse Hindemith'10. Como isto impa­cienta os profissionais, são os amadores sem am­bições que assumem o encargo. Daí o lúdico: os vários chapters da American Recorder Society que se reúnem às terças-feiras para fazer as músi­cas de John Dowland num anexo da Igreja. Ou ainda o didático: os coros escolares de cento e uma flautas doces tocando uma versão estilizada da Música Aquática de Handel.

A terceira resistência é a da volúpia pelos meios técnicos. A reprodução do cravo de Ra­meau'11 tem de ter um registro peau de bouffle (pele de búfalo mesmo!) e os cornos do fauno que enfeitam a tampa do cravo tem que ter o mesmo tom pistache do original. A super-ortodoxia estilís­tica é coisa do mesmo gênero: o flatément é feito com oscilações exatas de 7/16 de tom, a inegalité das danças courantes é mantida na proporção precisa de 3.33:1. Vide Sol Babitz, do Early Music Laboratory da Califórnia.

A última resistência – e a mais difícil – é a do bom senso. "As coisas não podiam ser muito dife­rentes no tempo de Buxtehude'12" - este é o princípio da ilusão. O homem é sempre o mesmo e a execução tem de ser de bom gosto senão... o pú­blico foge.

O argumento é forte: um concerto de fortepiano de Cristofori, ao rigor do gosto da corte de Mode­na, em 1723, pode causar tanto incômodo à pla­téia quanto a estréia da Sagração da Primavera. E alguém tem de sustentar o fortepianista.

Vencidas as resistências todas, talvez o resul­tado seja mais filosófico do que aparente. Certas interpretações do Concentus Musicus de Viena* 13, muito mais contaminadas de ilusões e resistências do que as do conjunto La Petite Bande'1', dão ao público em geral mais impres­são do Outro, ainda que não seja o Outro históri­co.

As discussões neste ponto são labirínticas: o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini tem maior dimensão histórica (ou teológica, ou heu­rística) do que Os Dez Mandamentos de Cecil B. de Mille? Para o público?

Por mim, de todas as infindas gravações que te­nho do 4° Concerto de Brandemburgo, de Bach, fiéis ao estilo, fidelíssimas, ou miraculosamente reconstituídas, prefiro um velho disco holandês de 1958, com flautas Boehm e cravo Pleyel.

Nãoperfeição filosófica que justifique a falta de étincele.`.

Denis Borges Barbosa é flautista.

- Instrumento de arco e cordas, surgiu no século XV, provavel­mente na Espanha. (Veja ilustrações na matéria de Myrna Her­zog).

1 - Instrumento de sopro alemão da Renascença, com palheta dupla. som anasalado.

2 - Instrumento de sopro medieval, palheta dupla.

3 - Instrumento de sopro, palheta dupla, surge no século XIV. 4 - Articulação que se faz com a ponta da língua ao tocar flauta doce. para obter um som especial, que soa como turu.

5 - Hottetere, Jacques (1684-1762) - flautista francês, composi­tore construtorde instrumentos, autorde um tratado sobre flau­ta.

6 - Quantz, Joachim (1697-1773) - flautista e compositor, autor de um tratado sobre flauta.

7 - Bachelard. Gaston - filósofo francês.

8 - Dolmetsch, Arnold e família - músicos e construtores sul­os de instrumentos.

8 - Handel. Georg Friederich (1685-1759) - compositor alemão. 10 - Hindemith, Paul (1695-1963) - compositor alemão.

11 - Rameau. Jean Philippe (1683-1764) - cravista, organista, compositor e autor de um tratado de harmonia.

12 - Buxtehude. Dietrik (1637-1707) - organista e compositor holandês.

13-Conjunto instrumental criado por Nikolaus Harnoncourt, especializado em repertório barroco e clássico. Existem vários discos em selos nacionais deste conjunto.

14 - Conjunto de origem belga, tendo à frente os irmãos Kuijken. - Poderíamos traduzir esta palavra como brilho, charme, cinti­lância