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. Uma vida de músico
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Cacilda Borges Barbosa




UMA VIDA DE MÚSICO: ESTÓRIAS DE UM MÚSICO ANTIGO


Trechos do livro Geometria sem vértices - 2004

 

. Paschoal
. Karabitchevsky
. Aírton Barbosa
. Almeida Prado
. Tom

 

Paschoal

Não havia quem não o conhecesse: dormindo em todas as solenidades, muito aceso agitando cultura, uma locomotiva da vida artística nacional. Embaixador, Paschoal Carlos Magno podia ter inventado um país próprio para representar, tanta coisa fez na vida, e especialmente depois de velho.

Não sei exatamente como ele foi recrutado para nos lançar na vida musical. Certo é que um dia apareceu em nosso ensaio Jodacyl Damasceno, violonista profissional infinitamente além do nosso gabarito. Mandado pelo Paschoal, e desobedecê-lo quem há-de? Com as três flautas doces e um implausível  contrabaixo, o violão do Jodacyl transformava o resultado daquele  conjunto amadoríssimo de adolescentes em um arremedo de música.

Jodacyl teria seus trinta e cinco, e estudara com Antonio Rabelo e Oscar Cáceres. Nós estávamos pelos quinze anos, e não havíamos estudado com ninguém. Seguro, bom leitor à primeira vista, coisa não muito freqüente entre violonistas. Fez-se nosso condutor e ensaiador, com uma paciência muito próxima da exasperação. Mas tinha uma missão: preparar nosso primeiro concerto da vida, num almoço na casa do Paschoal. 

Éramos o “Quinteto da Aldeia”, por batismo do nosso patrono. Tempos depois, iríamos mesmo tocar na Aldeia de Arcozelo, a terra encantada da cultura que Paschoal tinha engendrado nas proximidades da cidade fluminense de Miguel Pereira. Mas essa história vem depois. Entre nós, o conjunto seria “Camerata Telemann”.

Duas peças só no repertório, mais a promessa de um solo do Jodacyl, fomos para a casa do Embaixador, no Curvelo, em Santa Teresa. Hoje ainda, espaço do Teatro Duse, a casa lembra muito a presença de Paschoal. Mas nada substitui a presença do velho senhor (ele estava nos seus sessenta), recebendo seus convidados nas salas repletas de obras de arte e de folclore, e  repetindo: “não me roubem nada, que muito me custou roubar tudo isso”.

Pascoal ainda estava carregando as glórias de ter sido chefe da casa civil de Juscelino e a fama menor de ex-vereador da capital. O almoço, assim,  reunia metade da intelectualidade carioca, jovens atores sempre promissores, e gente de todo tipo. Como as estrelas prometidas da tarde,  nós, os músicos,  fomos distribuídos pelas mesas, para que os convivas pudessem usufruir isonomicamente de nossa companhia.

O problema era que, para nós, haveria não uma, mas duas estréias: a do Quinteto, e a das delícias do vinho, servido sem discriminação de idade. Antes da sobremesa, fomos ao chamados ao  palco. Paschoal, voz rouca e sempre sonolenta, vaticinou para nós um futuro diamantino, como acontecera com  todas  suas descobertas anteriores.

Jodacyl começou seu solo. Percebi que a partitura na minha estante tinha resolvido girar na direção anti-horária.  Meus colegas visivelmente se ressentiam de cataclismas parecidos. Fechar os olhos pareceu uma medida prudente, especialmente para esquecer o público. Jodacyl, ao fim do concerto,  empacotou o violão e sumiu de nossas vidas. Tinham até errado seu nome no programa mimeografado.

Até morrer, quinze anos depois,  Paschoal dizia manter ainda grandes esperanças nesses seus músicos, “desde que não bebam”. 






Karabitchevsky

Marcelo Madeira entrou pela porta do meu quarto umas sete e meia da manhã. Dormindo, sem óculos, não entendi nada. Marcelo discreto, mas firme. Acorda, que temos concerto agora. Como é que ele entrou sem chave na minha casa?

Danusia e o coelho Rudá. A porta aberta da cozinha, dando para o quintal. Marcelo não é de explicar muito. Tinha se esquecido de avisar, mas tínhamos concerto agora com a Orquestra Sinfônica Brasileira, no João Caetano. Marcelo, concerto de que? Bach, o quarto de Brandemburgo. Mas – sem ensaio? À primeira vista?

Havia uma desculpa – era o Música nas Escolas, e na platéia só haveria estudante de escola pública. Senti como se fosse meu Pearl Harbor pessoal, com todos os naufrágios. Serve só para as memórias.

Mas Karabitchevsky amou. “Vigoroso, vivo”. Na verdade, troncho e ofegante, estilo será-que-chego-no-fim-do-compasso? Ria para nós durante o Andante, as duas flautas doces se acertando no meio do susto, como se fossemos patos voando para a Groenlândia por engano. Nos allegri, atochava na velocidade, se divertindo com minha cara de dor. Colocou-nos na série completa das escolas, alguns anos seguidos, e no Ciclo Bach.

Na Cecília Meirelles, o maestro nos dava tratamento de gala: casacas e um ensaio de dez minutos. Rebocou-nos ao camarim (desta vez, meu parceiro era Homero de Magalhães filho, hoje maestro em Paris), para mostrar de onde copiava sua interpretação – de Karl Richter. Para o povo de música antiga, era como fazer chorinho com a banda do Oktober Fest.

O dia dele chegaria. Em 1975, no Festival Internacional de Curitiba. Isaac, que adorava a praça pública, criou, durante o festival, um concerto no meio do calçadão da rua central, toda tarde. Um dia, nosso turno de deliciar as massas, Karabitchevsky apareceu de oboé debaixo do braço. Desta vez queria tocar. Salivamos de antegozo. Tirei do fundo da mala um concerto em trio de Vivaldi, flauta doce, oboé e fagote – o em sol maior, RV 103. Lindo.

Isaac afinou, olhou a partitura, e – zaz! Não demos tempo nem para ele tomar ar. Aqueles fogos de artifício de puro aparato, tão inacreditavelmente eficazes, que Vivaldi sabe fazer. O maior de todos os farsantes. Para o público, encantamento; para o músico, dedos e língua para todo lado.

Karabitchevisky fungava, sem tempo nem de respirar. Suava caudalosamente. Estava morrendo de saudades da batuta. O oboé grasnava feito pato. No presto final, comia semicolcheias às mancheias, certo que ia ficar com gases. Roxo.

Nas palmas, Isaac nem se levantou. Turvo. Odioso. Eu e o fagotista, Ricardo Rappaport, enchemos o maestro de tapinhas de incentivo. Vigoroso, vivo!




Aírton Barbosa

A TV Continental, canal 9, Ficava na Rua das Laranjeiras, onde hoje funciona uma revendedora de automóveis. Decrépita, caquética, os iluminadores traziam e levavam as lâmpadas de casa. Uma câmara só. No banheiro não tinha nem água, cortada por falta de pagamento.

Mas era lá que Aírton Barbosa, fundador do Quinteto Villa Lobos - tão cedo foi ele de uma vida talentosa -, tinha um programa vespertino de música clássica. Ou melhor – de jazz. Era improviso de começo ao fim. Lógico que ao vivo, e sempre no susto.

Bom que era a dois passos da Pró Arte. Tarde de quinta feira, principalmente chovendo e com pouco aluno, o gostoso era ver se Aírton tinha um lugarzinho para tocar nas ondas hertzianas, com a delícia de seu fagote habilidoso e sensível, perfeito na leitura à primeira vista.

Um dia dos de temporal, Aírton, meu compadre Flávio Aprigliano e eu tínhamos anunciado um programa de Sammartini, divertimento grande para duas flautas e o baixo contínuo em fagote. O locutor, magro, mal vestido, faz o preâmbulo, o iluminador tira a lâmpada do bolso e coloca no holofote, e eu começo a tossir como um condenado. Era a chuva toda que eu pegara.

Simpatia, água morna, nada cura a tosse. O locutor, aterrado, alonga o início que não se encaixa em nada. Vem alguém com um xarope líquido. Uma colher. Duas. Vira a porra do vidro todo. E lá entramos no ar do jeito que dava.

Deu. Nada de tosse. No meio da segunda sonata, no largo ma non pesante, começamos eu e Flávio a improvisar, como o estilo do barroco italiano exige. Mas saiu uma vontade funda de fazer um jazzinho. Um pouco be-bop. Flávio acompanhou, de surpresa. Afinal, na audiência da TV Continental na tarde de quinta tempestuosa não havia nem mamãe. Cheio de dissonâncias estranhíssimas. Aírton Barbosa me olhou atravessado.

Mas a tarde estava maravilhosa. Que alegria em tocar! Giuseppe Sammartini, o autor das sonatas, que antes sempre eu achara chatinho, estava tão talentoso, tão inteligente. Lindo mais que tudo, o relógio verde do estúdio, agora com a cor de um lado, globo flutuante no espaço, e o quadrante de outro, sem cor alguma, só máquina.

“Beladona”, descobriu meu pai, que veio me recolher hora e meia depois. Uma dose cavalar no xarope.. Completamente dopado, eu continuava longe. Aírton acabara o programa fazia tempo, e eu continuava tocando em pleno séc. XVIII.




 

Almeida Prado

Sempre de terno, paulista medular, Almeida Prado teve a suprema desdita de ter de dividir um quarto de hotel comigo, no Festival Internacional de Curitiba de 1975. Sofria, discreto mas insone, meu ronco no quarto ao lado.

Mas tomou-se de amores pela flauta doce. Ouvindo meus estudos para os concertos de cada dia, aprendeu timbre e extensão, e acabou compondo um quarteto para flauta doce. Seria estreado ali mesmo, com Elizabeth Seraphim Presser, Homero de Magalhães Filho, Helder Parente – e eu, na flauta baixo.

Para quem nunca viu o instrumento, a flauta tem um metro e pouco de tamanho, e parece um pequeno fagote, principalmente pelo longo bocal tubular que vai do topo da flauta até os lábios do músico. A flauta baixo Küng, suíça, tem na extremidade de cima uma tampinha, como todo o instrumento, de madeira  clara, mas pesada. Uns cem gramas de tampa.

Ligeiramente dodecafônica, a peça de Almeida Prado explorava tudo que um quarteto de flautas doces pode dar: sons, ruídos e murmúrios. No último compasso, o autor pôs um signo que, em quinze anos de música antiga, eu nunca vira. Explicou: vocês quatro toquem aí, para encerrar a peça, a nota mais aguda e mais em fortíssimo que o instrumento conseguir.

Foi no Paiol, teatro circular de Curitiba, bom pela acústica meio de igreja, e capaz de umas cento e poucas pessoas. Para nós, os músicos, enfrentar peça nova, contemporânea, estréia mundial, era um fascínio. O público, meio espantado com uma música nunca dantes soprada em nossos instrumentos de duzentos anos de idade. Todo mundo, flautistas e platéia, carregados pelo fluxo de som estranho e poderoso.

No acorde final, então, o entusiasmo explodiu. Literalmente: soprando com tudo que eu tinha para chegar na nota que Almeida Prado queria, a tampa catapultou no espaço. O petardo subiu, fez ogiva no pé direito altíssimo, e desceu mortalmente. Só uma deusa grega do Acaso poderia explicar  como é que dentre centena e tanto de platéia, a tampa foi cair na cabeça do compositor.

Almeida Prado, com o galo subindo na testa e o rosto em fogo, ascendeu ao palco, recolheu as partituras, e nunca mais pudemos tocar o Quarteto de Curitiba para Flautas Doces.






Tom

Poço Fundo, distrito de S. José do Rio Preto, era um feudo dos Brasileiro de Almeida. Dos meus padrinhos de casamento Heloísa e Marcelo Brasileiro de Almeida Madeira, do seu primo também músico Antonio Brasileiro de Almeida Jobim, e de vários outros jobins.

Marcelo e Heloísa tinham comprado uma fazendola de cento e tantos anos, pequena, acolhedora, ainda com todo madeirame antigo. No telhado, Marcelo deixava madeira secando para fazer instrumentos – cornettos, tentativas de flauta doce, serpentões que até tocavam mesmo. Às tardes todas, o torno enorme, sofisticado a mais não poder, ia mugindo a bocca chiusa enquanto Marcelo dava feição aos instrumentos que, quando a luz do dia acabava, ele vinha tocar comigo. Isso, quando davam certo.

Quando voltei de Nova York em 1981, trouxe um teclado pequeno, mas, nos tempos, coisa nova e curiosa. Num daqueles fins de tarde, estávamos Marcelo, Heloísa e eu, o teclado fingindo cravo, para fazer um pouco do livro de Ana Magdalena Bach. Tom Jobim enfia a cara pela porta aberta e avisa que “queria também”.

Ele se senta, olha desconfiado a engenhoca, como se fosse um coleóptero novo, testa os sons de tudo que a Yamaha tinha embutido no instrumento, e escolhe ...sapos. Saiu a primeira das invenções a duas vozes de Bach. Coaxando.

A casa de Heloísa e Marcelo ficava do lado de cá da estrada; do lado de lá fica o rio. Tom tinha uma casa de madeira, pendurada na beira d’água, dormia no som do marulho (quem sabe, riulho?). Mas cismou de fazer outra casa, morro acima, numa linha reta contando de seu quase-barco para os altos. Aplainou o terreno. Fez planos.

Num dia de março eu e Danusia Barbara íamos passeando pelo feudo familiar. Chovia muito há dois dias, e a estiada parecia frágil. Tom descia pela estrada enlameada, vindo dos altos de sua casa futura. Papel na mão, vinha escorregando preguiçoso. Pediu opinião. Que achávamos do “É madeira de vento, tombo da ribanceira... é o mistério profundo”.

Danusia falou de Drummond. Tom ouviu, com jeito de quem não queria comparação, mas espanto. E fomos ouvindo a letra ainda incompleta que falava daqueles dias, daqueles tocos, daquela estradinha cheia de lama, de lama, de lama, do projeto da casa, do João filho do Marcelo, do fundo do poço de Poço Fundo.

E as águas de março continuaram a chover direto mais três dias.



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